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Nova chance para a vida: saiba como funciona a doação de medula óssea

Tendo como principal característica o acúmulo de células doentes no sangue, que substituem as células normais, a leucemia é um tipo de câncer que se manifesta na medula óssea. Atualmente, a doença corresponde a mais de 10 mil novos casos por ano no Brasil, segundo aponta o Instituto Nacional do Câncer (INCA). A importância do diagnóstico e tratamento da leucemia e a doação de medula óssea estão sendo abordados durante o mês de fevereiro, que recebe o laço laranja como forma de conscientizar a população sobre o tema. 

Conforme o INCA, existem mais de 12 tipos de leucemia, que contam com diferentes tratamentos – entre eles, o transplante de medula óssea. Além da leucemia, o transplante também é indicado para outras doenças relacionadas com a fabricação de células do sangue e com deficiências no sistema imunológico. “Os principais beneficiados com o transplante são pacientes com leucemias originárias das células da medula óssea, linfomas, doenças originadas do sistema imune em geral, dos gânglios e do baço, e anemias graves – adquiridas ou congênitas”, explica a médica hematologista Lisandra Della Costa Rigoni, especialista em Transplante de Células Tronco Hematopoiéticas. 

Para realizar o transplante é necessário haver um alto grau de compatibilidade entre doador e receptor. Atualmente, o Brasil tem mais de 5 milhões de doadores de medula óssea cadastrados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME), sendo o terceiro maior banco de doadores no mundo. Por outro lado, 650 pacientes estão inscritos na busca de doador não aparentado. Mas apesar do grande número de doadores, muitos estão com os dados desatualizados no sistema e por esse motivo acabam não sendo localizados. 

Juliana Ribeiro está entre os milhões de doadores que fazem parte do REDOME. Cadastrada desde 2015, ela conta que viu a possibilidade de fazer a diferença na vida de alguém se tornando uma doadora.

“Infelizmente, é muito difícil de se encontrar um doador de medula óssea, portanto, é de suma importância ter um bom número de doadores para que haja um aumento na probabilidade de encontrar alguém compatível. O processo é simples e a medula só é a doada de fato quando há compatibilidade. No hemocentro somente extraem uma amostra do seu sangue para fazer parte do cadastro.”

Juliana Ribeiro
Juliana com a carteirinha de doadora de medula óssea

E foi graças a um doador cadastrado no REDOME que o Théo Camargo Corrêa recebeu uma nova vida. Em 2015, após diversas idas ao hospital com uma febre constante, ele foi diagnosticado com a doença. À época, ele tinha 1 ano e 8 meses de idade. Após um longo período de tratamento, com várias etapas e muitos dias de internação, a família, moradora de Gravataí, foi informada de que o menino precisaria passar pelo transplante de medula óssea.  

A expectativa era de que houvesse um doador compatível entre os familiares e amigos, mas infelizmente foi frustrada. Logo, o Théo foi cadastrado no REDOME. E não demorou muito para que o telefonema mais aguardado chegasse. Em cerca de 20 dias, um possível doador para o Théo foi identificado. “

“Na hora [da ligação] o que passou pela minha cabeça foi agradecer a Deus por ter dado a dádiva de ter alguém 100% compatível com meu filho, porque a gente sabe o quão difícil é achar um doador com total compatibilidade.”

Vanderleia Camargo Corrêa , mãe de Théo

O transplante foi realizado em 2017 e foi um sucesso. Hoje, Théo está com 8 anos e saudável, e segue fazendo acompanhamento anual com a equipe médica. Em janeiro deste ano, ele e o doador de quem recebeu a medula tiveram a oportunidade de se conhecer. Juntos, celebraram a vida. 

Como se tornar doador de medula óssea 

O procedimento para doar medula óssea é seguro e envolve poucos riscos ao doador. Para ser um doador, basta ir até um hemocentro. O voluntário à doação irá assinar um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), e preencherá uma ficha com informações pessoais. É necessário apresentar o documento de identidade. Após, será retirada uma pequena quantidade de sangue (10ml) do candidato a doador.  O sangue será analisado por exame de histocompatibilidade, um teste de laboratório para identificar suas características genéticas que serão cruzadas com os dados de pacientes, determinando a compatibilidade. 

Esses dados serão incluídos no REDOME e quando houver um paciente com possível compatibilidade, o doador será consultado para decidir quanto à doação. Por este motivo, é necessário manter os dados sempre atualizados

A doação da medula óssea é um procedimento realizado em centro cirúrgico e requer internação de 24 horas. Durante o procedimento, que leva em torno de 90 minutos, a medula é retirada do interior de ossos da bacia, por meio de punções. Após o procedimento, a medula óssea do doador se recompõe em apenas 15 dias. Segundo a hematologista Lisandra Della Costa Rigoni, os doadores normalmente retornam às suas atividades habituais depois da primeira semana após a doação. “Nos primeiros três dias após a doação pode haver desconforto localizado, de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos e medidas simples”. 

A médica também explica que existe outro método de doação chamado coleta por aférese. Neste caso, o doador faz uso de uma medicação por cinco dias com o objetivo de aumentar o número de células-tronco (células mais importantes para o transplante de medula óssea) circulantes no seu sangue. Após esse período, a pessoa faz a doação por meio de uma máquina de aférese, que colhe o sangue da veia do doador, separa as células-tronco e devolve os elementos do sangue que não são necessários para o paciente. Não há necessidade de internação nem de anestesia, sendo todos os procedimentos feitos pela veia. 

A decisão sobre o método de doação mais adequado é exclusiva dos médicos, tanto do paciente quanto do doador, e é avaliada em cada caso.