02/01/2009

Uma fábrica de craques

Através a uma estrutura multidisciplinar o Inter cria gerações de novos craques

Por Luiz Felipe Mello

A história comprova com exemplos extraordinários que o Sport Club Internacional é um modelo a ser seguido no que diz respeito à formação de jogadores. No seu currículo constam revelações como Falcão, Dunga, Taffarel e, mais recentemente, Rafael Sobis e Alexandre Pato. O detalhe é que, por trás dos grandes ídolos e de jogos memoráveis, existe uma estrutura composta por profissionais do mais alto gabarito que contribuem decisivamente na transformação de meninos em atletas. Dentro das suas respectivas áreas, eles trabalham nos bastidores com o propósito sagrado de manter a alcunha que consagra o Inter como o Celeiro de Ases.

Não é fácil formar um rei de Roma, um capitão do Tetra e o goleiro número um da Seleção Brasileira. É preciso ter olhos atentos e experientes como os de Luiz Cláudio Sanzi, avaliador técnico do Internacional. Em 1999, o setor de Avaliações Técnicas foi criado por ele e pelo coordenador da categoria juvenil, Ademir Calovi Costa, com a intenção de trazer novos talentos para o Beira-Rio. A primeira tarefa executada foi no sentido de mudar o termo ?peneira? para avaliação técnica. A intenção era qualificar a área. Segundo Sanzi, o processo de seleção é dividido em três fases.

?A primeira parte é onde os meninos se inscrevem e são avaliados no período de três dias. Nesse intervalo de tempo, os meninos mostram a sua capacidade técnica, tática, física e psicológica. Esta etapa é o que nós chamamos de filtragem?, coloca Sanzi. A fase seguinte é chamada de aspirantes que é integrada pelos aprovados do estágio básico e pelos jovens que são avaliados no Brasil inteiro. ?Nessas avaliações fora do Rio Grande do Sul, o Internacional atua apenas como convidado. É comparável a um evento, já que nós acompanhamos jogos e competições para buscar jovens de outros Estados?, acrescenta.

Após a etapa denominada aspirantes, os garotos chegam à fase de teste no grupo, onde o grau de dificuldade aumenta. É nesse momento que ocorre a decisão pela dispensa ou pela contratação do jogador.  A equipe de avaliadores tem uma rotina cheia, que inclui o acompanhamento quase que diário de treinamentos. Dessa forma, o avaliador sabe a carência de cada categoria, que pode ir desde um zagueiro canhoto até um centroavante. 

?As categorias menores, 99, 98, 97 e 96 são grupos que te autorizam a buscar uma única coisa: talento puro. Assim, quanto mais cedo o menino participar de um trabalho de alto nível como o nosso, mais chance ele tem de dar o retorno adequado para o Clube. Eu penso que jogador nasce com talento, mas essa formação que o Inter possibilita, através de uma estrutura multidisciplinar, faz com que essa aptidão para jogar futebol aflore?, define Sanzi. Além dele, Pinga, Dorinho, Luis Carlos Martins, Sandro Junior e Adecir Santin também são avaliadores do Sport Club Internacional.


O aprendizado: da base ao time profissional

Uma vez no Clube, o jogador incorpora a rotina de trabalho da base que inclui, não apenas treinamentos e jogos, como também a alimentação adequada. Cíntia Carvalho e Lenice Carvalho são as nutricionistas responsáveis pela educação alimentar dos jogadores das categorias de base e dos profissionais. Cíntia é a responsável por trabalhar com os meninos de 10 aos 18 anos, período ideal para o desenvolvimento do atleta. Recém chegados, os jovens são incentivados a ter uma dieta responsável que é monitorada pelos pais. Cíntia diz que sem a ajuda dos pais nessa etapa inicial da vida futebolística a tarefa de criar hábitos saudáveis na hora da alimentação não funciona. Com dinâmicas de grupo, os alimentos que a nutrição colorada considera próprios para saúde são colocados aos poucos no dia-dia dos jogadores.

A partir do Mirim e do Infantil, a abordagem passa a ser individual, onde os garotos precisam ser inteligentes para comer. ?Se a meninada vai comer algo que eles sabem que não é adequado, nós pedimos a eles que comam no momento em que a recuperação energética deles não será afetada. Também optamos por não radicalizar e sim adaptar a alimentação sadia à realidade dos jogadores?, afirma a nutricionista.

A mudança nos hábitos alimentares acontece de forma lenta e gradual. Os meninos que antes não comiam saladas e frutas todos os dias, passam a colocar verduras em pelo menos uma refeição do dia. Desse modo, as palestras educativas que tratam de temas como fast food, café da manhã, hidratação e recuperação pós-jogo deixam os garotos mais cientes da responsabilidade com o corpo.  ?Com os juniores nós conseguimos colocar frutas e sucos no vestiário para que eles comam antes do treino. E imediatamente após os exercícios eles recebem um lanche para comer. Essa medida não é à toa e nem para agradar. Essa primeira hora depois do treinamento é quando eles atingem pico máximo de recuperação energética que eles conseguem assimilar?, sublinha Cíntia.

A partir da categoria júnior é que inicia o cuidado maior com a parte muscular e com a recuperação da mesma. Durante essa faixa etária, os jogadores costumam sair do alojamento para morarem sozinhos e ficam sem a presença diária dos pais. A oportunidade para alimentação indevida cresce e os jogadores, em dias de folga ou de férias, optam por comer em fast foods ou pela tele-entrega. Nesses momentos de lazer, a maneira que o departamento de Nutrição do Internacional encontrou para proporcionar aos atletas a alimentação saudável foi elaborar uma lista de restaurantes e serviços de tele-entrega com cardápios das refeições adequadas e as inadequadas. A tabela envolve estabelecimentos da região do Bairro Praia de Belas e que fiquem próximas ao Beira-Rio. Lenice Carvalho lembra que ao chegarem aos profissionais, os atletas originários da base já vêm com uma educação alimentar bem fundamentada, o que facilita o trabalho nutricional. ?Os jogadores das categorias menores que realmente almejam chegar ao profissional se dedicam mesmo. Eles investem tudo que eles podem para atingir o ápice de suas carreiras?, completa.

Com a alimentação em dia, os jogadores encaram os preparadores físicos. Os homens que desenvolvem a potência, agilidade, resistência e força dos atletas. Por parte dos juvenis, está Marcos Paulo que fala com propriedade sobre as mudanças do tempo de desenvolvimento do atleta. ?O período ideal para que nós consigamos fazer com que o atleta evolua é de oito a dez anos. Mas, atualmente esse prazo não vem sendo respeitado, porque o processo de formação foi acelerado pela Lei Pelé. Nós cumprimos as etapas básicas sempre com a pressão de mostrar resultados, até pela grandeza do Internacional?, relata. Ainda nas categorias menores a idéia principal dos jogos deveria ser a formação, no entanto, a realidade se apresenta de outra forma, já que as partidas são utilizadas como competição. André Volpe, preparador físico dos juniores, com 12 anos de Inter, afirma que cada categoria tem a sua valência a ser trabalhada. ?O panorama do futebol mudou muito. Nós não podemos esperar que somente aos 20 anos um jogador alcance o ápice da sua condição físico-atlética. É um processo acelerado naturalmente. Aqui no júnior nós intensificamos a parte da força e potência, uma vez que a resistência a maioria já possui. Também é preciso considerar caso a caso?, opina.

No campo suplementar A do Complexo Beira-Rio atua o coordenador de preparação física Élio Carravetta, o profissional que é conhecido como o mago da recuperação de jogadores. Carravetta observa atentamente os treinamentos. Ora conversa com Tite, ora troca figurinha com Cleber Xavier. Seus 12 anos de Clube o autorizam a fazer um aviso: ?Jogador para ter sucesso precisa vencer os obstáculos. O desafio do banco de reservas ou até de ficar fora do time. O atleta que supera essas provações tem condições de subir para o grupo principal. Esse sentido de competitividade é essencial para se ter êxito no futebol?, alerta.  

Serviço Social

Maria Bernadete Guichard e Patrícia Vasconcellos são as responsáveis pelo Serviço Social do Internacional. O departamento fica responsável pelo acolhimento dos jogadores, quando estes são novos no Clube. O setor atua através de cuidados especiais como médico, dentista, matrículas para escola, assim como a assistência à família do atleta. ?Nós temos estagiárias em cada categoria que observam a rotina dos jogadores. Qualquer situação incomum que ocorra nós convocamos o garoto para uma entrevista. A nossa intenção é permanecer envolvidos na formação e na construção da cidadania desses atletas?, ressaltou Bernadete.

Matéria publicada na Revista do Inter


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