10/12/2007

FERNANDÃO: 'SOU UM COLORADO APAIXONADO'

Aos 29 anos Fernandão já conquistou os mais importantes títulos do planeta com a camisa colorada. Poderia até ser um jogador realizado, mas não é. Muito pelo contrário, o capitão quer mais e mais títulos. E deseja isto o quanto antes. Em entrevista exclusiva à Revista do Inter de outubro, e agora reproduzida no site, Fernandão falou da sua trajetória vencedora no clube e os planos para o futuro.

Revista do Inter ? Com as conquistas dos maiores títulos da história do clube, o que você ainda busca para o futuro?
Fernandão ? Títulos. Tenho muita coisa pra viver ainda. Foi maravilhoso o que a gente passou, o que a gente conquistou, mas você tem que estar sempre colocando novos objetivos na vida. Quando fui contratado pelo então presidente Fernando Carvalho, ele queria montar uma equipe forte pra colocá-la entre as melhores do Brasil e da América do Sul. Esta equipe acabou conquistando o mundo. E a partir do momento que terminou aquele título, quando você conseguiu chegar ao ápice da história do Clube, tem que visar coisas novas. Nós já havíamos colocado como objetivo mais rápido tentar o bicampeonato da Libertadores da América e a conquista da Recopa. As coisas não funcionaram da maneira que nós pensávamos na Libertadores, mas a gente ganhou a Recopa. Para o futuro,  acho que a gente tem grande possibilidade de conquistar de novo a classificação para a Libertadores. Para tentar buscar de novo esse título que é tão gostoso.

RI ? Você falou que as coisas não funcionaram na Libertadores deste ano. O que  aconteceu?
F ? Acho que teve uma mudança natural, até porque mudou também a presidência, a diretoria. Aqui dentro mudaram alguns jogadores. Infelizmente a nossa equipe teve que ir se formando ao longo de todo ano. A gente não se encontrou desde o começo. De repente, se nós tivéssemos feito um bom Campeonato Gaúcho, uma boa Libertadores, as coisas teriam sido um pouco diferentes. No meu ponto de vista, a questão de ter jogado a Libertadores e o Campeonato Gaúcho intensamente como nós jogamos, sem ter folga, sem ter a preparação que houve em 2006, atrapalhou um pouco. Não é desculpa de quem perdeu, de quem esteve aqui dentro e não conseguiu, mas acho que, no ano passado, a gente fez uma boa seqüência em relação a jogar o Campeonato Gaúcho e a  Libertadores. Um time jogava o Gauchão (os reservas, no caso), e os considerados naquele momento titulares ficavam a semana toda se preparando para o jogo da Libertadores. Este ano isto não ocorreu. A gente teve que correr atrás do Gauchão pra tentar uma classificação e embolou junto com a Libertadores.
 
RI ? Nestes mais de 160 jogos pelo Internacional em quase quatro anos, teve algum momento mais emocionante, que ficará sempre marcado pra você?
F ? O momento mais marcante foi o meu jogo de número 1. Aquele momento fez com que abrissem as portas do coração do torcedor, da diretoria, do clube em geral. Estrear em um campeonato importante como o  Brasileirão e no maior clássico do futebol brasileiro, que é o Gre-Nal, é uma responsabilidade imensa. A torcida toda criou uma expectativa muito grande. Ali, naquele jogo, fiz o gol 1000, então já na estréia, no meu primeiro gol, já entrei pra história de um Clube que teve tantos artilheiros, tantos grandes jogadores e ídolos. Então pra que pudesse ter toda a trajetória de mais de 160 jogos, aquela primeira partida foi muito importante. Aquilo vai ficar marcado com certeza na minha carreira porque foi o começo de toda minha história no Internacional. De qualquer maneira, todos os meus jogos aqui no Inter irão ficar no meu coração porque foram os melhores momentos que vivi na carreira.


Melhores momentos: Gol 1000 da história dos Gre-Nais

RI ? Vamos falar um pouco do teu papel como capitão: quando você fala para o grupo, como naquele momento antes de o time entrar em campo no Mundial, que foi eternizado no DVD Bastidores de um um sonho, de onde vem a inspiração?
F ? Não sei. Quando assisti ao primeiro DVD dos bastidores do Campeonato Mundial, quando vi a minha fala antes do primeiro jogo, não lembrava do que tinha dito. Quando comecei a lembrar até brinquei: ?Pô, eu falo palavrão pra caramba antes dos jogos.? Mas é porque o teu sangue começa a subir. Tem que começar a entrar no clima do jogo, tem que chamar os teus jogadores por mais que já haja motivação. E por mais que já tenha todo aquele sistema ali, que nós já conhecemos, você tem que falar alguma coisa forte antes do jogo pra mexer realmente com o brio de todos. Não é nada calculado ou pensado. Por vezes no aquecimento você sente uma coisa, vê um jogador com uma movimentação diferente ou algum companheiro falando algo que te inspira a dizer o que vem na cabeça - e isso talvez seja do momento mesmo. Para falar a verdade eu não sei de onde vem a inspiração.

RI ? Chegou a pensar em alguma coisa no Mundial por ser um evento especial?
F ? Não. No Mundial, pensei no momento que  estava indo para o jogo. Lembro de ter visto o São Paulo em 1992 e 1993, quando foi campeão mundial. Não era são-paulino, mas tinha primos e parentes que eram. Via nos olhos deles a confiança que tinham no Zetti, no Raí, no Palhinha. Via a confiança naqueles jogadores que estavam no Japão naquela época. Daqui a pouco, 15 anos depois, estava eu ali vivendo aquela situação e me passando por um Raí, por um Palhinha, por um Zetti. Sabia que naquele dia tínhamos milhões de pessoas que estavam confiando em nós. Isto que pensei: ?Que responsabilidade saber que milhões e milhões de pessoas estão hoje lá no Brasil assistindo à partida com uma confiança muito grande em cada um de nós.?. Foi o que pensei dentro do ônibus e foi o que falei no vestiário.


Gol da vitória sobre o Boca Juniors pela Copa Sul-Americana de 2005

RI ? Você se considera realizado?
F ? Não. Acredito que você não pode se dar por satisfeito nunca. Sempre tem algo a mais, um recorde a mais pra bater, alguma coisa pra buscar. Quero ser campeão brasileiro pelo Internacional. A gente sabe da ansiedade que o torcedor tem. Já são 28 anos que o Inter não ganha. Tenho um objetivo que é conquistar o Campeonato Brasileiro pelo Inter e até por mim mesmo porque  também não possuo esse título.

RI - E a Seleção Brasileira? Tem planos?
F - Acho que a Seleção passa por uma reformulação. Mas isso não quer dizer que você tem que convocar jogadores jovens. Existem jogadores experientes que possuem espírito de Seleção, que tem espírito brasileiro de ser. Por mais que terei 30 anos no ano que vem e 32 na Copa de 2010, vou ter sempre como objetivo a Seleção Brasileira. Por mais lógico e realista que eu seja, e por mais difícil que é chegar à Seleção Brasileira, quando você está jogando em um clube grande como jogo hoje, as portas da Seleção ficam abertas. Você que tem que fazer o papel no clube.


Gol sobre o Libertad do Paraguai, na semifinal da Libertadores

RI ? É verdade que tem planos de morar em Porto Alegre quando parar de jogar? Tem planos em relação ao Inter no futuro?
F ? De morar em Porto Alegre sim. Já defini isso com a minha esposa. Já temos nosso apartamento. Independente de ter as minhas raízes e a minha fazenda em Goiás, a minha residência fixa será em Porto Alegre. Vou viver aqui. Não tenho nada definido com relação ao futuro depois de terminar minha carreira, se vou seguir como dirigente, empresário, treinador ou fazendeiro. A única coisa que tenho certeza é  continuar morando em Porto Alegre. Foi uma cidade que me recebeu muito bem. Não só os colorados, mas o gaúcho em geral me recebeu muito bem. É uma cidade, um Estado que tenho um carinho enorme. Entre ter planos de continuar no clube, decido depois que parar. Verei que diretoria vai estar aqui e o que a gente decide.

RI ? Qual o gol mais bonito pelo Inter?
F ? O de bicicleta contra o Coritiba, no meu primeiro ano aqui em 2004. Já havia feito um gol parecido nos tempos de Goiás, quase da entrada da área. Estes dois gols são os mais bonitos pela plasticidade do movimento. E o mais importante foi o da final da Libertadores, que abriu o caminho para o nosso título contra o São Paulo.

RI ? O que o Inter significa pra você?
F ? É difícil descrever em palavras. Na verdade acho que tenho muita fé, tenho a minha crença particular e acredito muito que o meu destino estava traçado pra passar pelo Inter, por tudo que vivi. Fui uma pessoa que cresceu em Goiânia, apaixonado pelo Goiás, torcedor desde os tempos de moleque e o meu sonho era jogar no profissional do Goiás. Mas quando você consegue realizar um sonho tem que projetar outros. Acabei indo para a França, fiquei um pouco esquecido. Acredito que a minha carreira pela dimensão que tem hoje estava traçada para vir para o Inter. No meu primeiro jogo, marco o gol 1000, e entro pra história dos clássicos. Depois sou campeão da Libertadores, do Mundial... Então o Inter hoje é o meu time de coração. O Goiás é o meu time de criança, time que sempre sonhei em jogar, mas hoje sou um colorado realmente apaixonado. Vivo muito, sofro muito com as derrotas. Então fica difícil definir em uma palavra o que o Inter representa. Tenho carinho e agradecimento enormes ao Fernando Carvalho e ao Vitorio Piffero e a toda instituição acima de tudo.


Conquista da Tríplice Coroa

RI ? Qual foi o momento mais difícil nos quase quatro anos de clube?
F
? Sem dúvida foram as minhas lesões. A primeira em 2004, quando o time estava muito bem, eu estava em um ótimo momento, na Sul-americana, e depois agora em 2007. Acho que o momento mais difícil está sendo esse ano porque já comecei com uma cirurgia de hérnia, tentei voltar o mais rápido e voltei bem. Mas logo depois da cirurgia começou uma dor no meu músculo adutor. Um incômodo que estava me desgastando bastante. A cada jogo a dor ía aumentando, e ela me levou a uma dor no púbis muito complicada. Mas agora estou totalmente recuperado.

RI ? O que esperar do Fernandão e do Inter em 2008?
F ? Do Fernandão aquilo que sempre digo: empenho, determinação, um jogador que vai estar sempre querendo vencer e que está sempre imbuído com a vitória. Logicamente sabendo perder e tirando lições das derrotas, mas sempre querendo vencer. Nunca prometi gols, nunca prometi nada mais do que possa dar dentro de campo. O empenho às vezes é estar concentrado pra fazer gols, pra aproveitar as oportunidades que surjam, então de mim é isso. Do Inter, não tenho dúvida que vai estar muito forte porque essa transição de 2007 fez com que a nossa equipe chegasse nesse final de ano muito bem. Temos um elenco muito forte, um grupo muito bom. Em 2008 esse grupo vai estar mais entrosado ainda, como aconteceu com aquele grupo de 2006 que vinha com alguns jogadores de 2004, outros que chegaram em 2005, e no ano seguinte foi o complemento de tudo. Acho que 2008 será um ano maravilhoso e com certeza 2009 também. Serão anos de vitória para o Inter.

>> Os melhores momentos do capitão

17/06/2004 ? Inter contrata Fernandão junto ao Olympique de Marseille.

10/07/2004  - Logo na sua estréia, marca o gol 1000 da história dos Gre-Nais na vitória por 2 a 0.

22/08/2004 ? Faz um golaço de bicicleta no empate em 1 a 1 com o Coritiba no Beira-Rio.

19/09/2004 ? Anota os dois gols e dá um show de bola na vitória sobre o Vitória por 2 a 1 no Beira-Rio.

09/03/2006 ? Faz o gol da virada por 2 a 1 sobre o Pumas na primeira vitória fora de casa do Inter na Libertadores 2006.

17/04/2005 ? Conquista o título gaúcho ao bater o 15 de Campo Bom por 2 a 1 na final.

05/10/2005 ? Faz dois gols na goleada por 3 a 0 sobre o São Paulo, então campeão da Libertadores.

01/09/2005 ? Com um gol de pênalti, garante o empate em 1 a 1 com o São Paulo e elimina o clube paulista da Copa Sul-Americana.

18/04/2005 ? Convocado para a Seleção Brasileira por Carlos Alberto Parreira para disputar amistoso no Pacaembu diante da Guatemala.

19/10/2005 ? Aos 48 minutos do segundo tempo, anota o gol da vitória sobre o Boca Juniors por 1 a 0 no Beira-Rio pela Sul-Americana.

03/08/2006 ? Com um gol seu, ajuda o Inter a derrotar o Libertad por 2 a 0 no Beira-Rio, garantindo o time colorado na final da Libertadores.

16/08/2006 ? Faz o primeiro gol do empate em 2 a 2 com o São Paulo que dá o título da Libertadores ao Inter. Fernandão foi o goleador do Inter na competição com cinco gols e eleito o melhor jogador da final.

17/12/2006 ? Ergue a taça do Mundial Fifa ao derrotar o Barcelona por 1 a 0. O mundo é vermelho!

07/06/2007 ? Mesmo sem ter atuado na final por lesão, levanta a Recopa ao lado de Iarley e Clemer na decisão diante do Pachuca. Inter conquista a Tríplice Coroa inédita.

21/10/2007 ? Marca dois gols diante do Juventude na goleada por 3 a 0 pelo Brasileirão.

4/11/2007 - Inter vence o Vasco da Gama no Rio com dois gols do capitão colorado

25/11/2007 - Marca dos gols na vitória de 2 a 1 sobre o Palmeiras

Entrevista feita por Alexandre Corrêa
Fotos: Alexandre Lops e arquivo


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