19/11/2019

Eller e Cuesta: coincidências que vão além do dia 19

Lotado, o Beira-Rio assiste atônito ao lépido avançar de ponta, segundo atacante, winger ou extrema, seja como preferir, do time adversário, que progride pela direita. O contra-ataque leva perigo, especialmente quando o avante rival, mesmo que desequilibrado, consegue superar a primeira tentativa de desarme que lhe é imposta. De cabeça erguida, ele domina a intermediária e toma a decisão de tentar arrematar a jogada sozinho, assim adiantando a bola e tentando o corte no zagueiro. Ato contínuo, o Gigante explode ao grito de milhares de colorados e coloradas. Impecável, o bote de nosso defensor é comemorado como se fora um gol. Liso e sem falta, o furto da redonda também serve de início à resposta alvirrubra, extremamente bem armada pela acurácia da perna canhota do defensor do Clube do Povo.

Não, a falta de um sujeito no parágrafo anterior não foi acidente. Pelo contrário; tem por objetivo suscitar na cabeça da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande a imagem do zagueiro capaz de fazer nossa casa vibrar exatamente por impedir um gol. Afinal de contas, por mais irônico que possa parecer, o templo colorado, que a tantos goleadores já se curvou, também se habitou a reverenciar beques. Muitoss, ao longo de seus cinquenta anos de história. Inesquecíveis, no século XXI. Canhotos, então, foram e seguem sendo especiais - como revelam os dois aniversariantes desta terça-feira 19 de novembro

O primeiro deles, seguindo a ordem de nascimento, é Fabiano Eller. Soldado do time campeão da América em 2006, carrasco do multimilionário ataque do Barcelona em dezembro daquele mesmo ano e coringa do elenco bi continental em 2010; Eller, que hoje comemora 42 primaveras de vida, começou sua carreira como volante, atuando pelo Vasco da Gama. No clube carioca, o capixaba de Linhares conquistou a Libertadores de 1998, título que, se para alguns poderia significar um precoce auge na carreira, para Fabiano apenas serviu de prólogo à vitoriosa biografia que ansiava por ser escrita.

Contratado pelo Clube do Povo em 2006, aos 28 anos, logo assumiu a titularidade no time colorado. Regular, atuou os 90 minutos de todas as catorze partidas da Libertadores, e teve tamanha eficácia recompensada justamente na finalíssima, quando viveu seu ápice naquela caminhada continental ao não perdoar o imperdoável vacilo de Ceni e, com seu abençoado pé esquerdo, servir Fernandão para que o escore do inesquecível dia 16 de agosto fosse inaugurado.

Após a conquista da Libertadores da América, Bolívar, parceiro de zaga de Fabiano, transferiu-se para o Mônaco. Uma grande perda, aliviada pelo volumoso elenco do Inter, que permitiu a Abel repôr a retaguarda com Índio, zagueiro titular na temporada de 2005 e que atuara com frequência na reta final do torneio continental, principalmente quando o técnico colorado usava do esquema de três zagueiros. A nova dupla aproveitou o Campeonato Brasileiro para pegar o entrosamento necessário para a disputa do Mundial de Clubes, e o resultado foi excepcional: além do vice-campeonato nacional, Índio foi eleito o melhor zagueiro do Brasileirão pela Revista Placar, enquanto Eller foi escolhido para a seleção do Prêmio Craque do Brasileirão, organizado pela CBF em conjunto com a Rede Globo. Já em território nipônico, o defensor atuou os 180 minutos (mais acréscimos) dos dois duelos vencidos pelo Clube do Povo para então se sagrar dono do mundo.

De sua parte, Víctor Cuesta desembarcou no Beira-Rio no início do ano de 2017, somando a mesma idade exibida por seu companheiro de função 11 anos mais cedo. Ostentando no currículo convocações para seleção argentina e idolatria no Independiente, o gringo fez sua estreia pelo Inter atuando na lateral-esquerda, função também desepenhada por Eller ao longo de suas 93 partidas disputadas com o manto vermelho.

Desde então, Cuesta, que hoje atinge 31 anos de vida, registra 141 jornadas defendendo o Inter. Amado pela torcida vermelha, o defensor já virou até música da Banda Ataque Colorado, e atualmente integra, a exemplo de seu predecessor, dupla de zaga que serve de sinônimo de segurança para o povo vermelho. Na companhia de Rodrigo Moledo, Víctor encantou o país em 2018 a ponto de, assim como Eller, ser escolhido o melhor zagueiro do Campeonato Brasileiro pelo Prêmio Craque do Brasileirão. Além disso, também foi premiado pela Bola de Prata.

Para além das coincidências defensivas, se é verdade que a assitência de Fabiano diante do São Paulo atinge, por si só, o posto de incomparável, nem por isso certo passe do argentino para outro camisa 9 de nome no aumentativo e de rica história pelo Inter deixa de ter sua importância. Também contra o time do Morumbi, Cuesta aproveitou cobrança de falta da intermediária para, empurrado por público até então recorde no remodelado Beira-Rio, deixar Damião de frente para o gol, com a simples tarefa de se esticar todo e, em um carrinho avassalador, ou melhor, compressor, marcar para o Inter. Tento da virada no grande triunfo em partida do segundo turno do Brasileirão de 2018, acompanhada por exatas 45.263 pessoas.

Zagueiros de qualidade reconhecida, Eller e Cuesta não se destacam apenas pela precisão de seus carrinhos e botes, a agilidade de sua cobertura ou senso de posicionamento, mas sim todas estas características reunidas. Agora, imagine: se superar um já soa complicado, vazar uma zaga formada por esta dupla seria, certamente, próximo ao impossível. Casamento que poderia ser perfeito, e que instiga a imaginação da torcida colorada, ao mesmo tempo em que alimenta com calafrios os pesadelos dos rivais. Felizmente para estes, Víctor e Fabiano não são contemporâneos. A má notícia, por outro lado, fica por conta de os dois não serem exceção em nossa história, mas sim regra. De um Clube que viu Alfeu, Nena, Florindo, Scala, Figueroa, Marinho Peres, Mauro Galvão, Pinga, Gamarra, Célio Silva, Índio, Bolívar, Moledo e tantos outros. De um Povo, que jamais se sente desprotegido com a certeza de estar sempre acompanhado por seus xerifes, soldados e patrões.


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