27/08/2019

Na grama e no cimento, em 2010 avançamos na Libertadores

A Libertadores tem um ritmo diferente. Soa, aos ouvidos do apaixonado por futebol, como a mais harmônica mistura da cumbia com o tango, passando pelo samba e o ruquerraque. Envolvente disputa capaz de impôr a uma mesma equipe, durante breves 90 minutos, emoções que transcendem da alegria ao drama, do sofrimento à explosão. Aquele que deseja conquistar a Copa deve ser capaz de, com maestria, superar todo um caminho feito para lhe causar percalços. A melhor maneira de atingir este feito? Contando com a força de uma casa que esteja à altura da mística do torneio.

Em 2010 tropeçamos, não há quem negue. Não por fraqueza, e sim graças às armadilhas que visitaram nossa campanha. Diante de acanhado alçapão hermano, enfrentando hostil arbitragem charrua, com direito a pênalti sonegado e expulsão polêmica forçada, sucumbimos para o Banfield.

Para avançar às quartas, o Inter dependeria de vitória por placar superior aos de vantagem mínima. A alternativa, única, residia em apostar no Beira-Rio. Tanto que, minutos após o confronto ser encerrado, o Clube do Povo já convocava sua gente, através de site e redes sociais, a tomar as arquibancadas do Gigante na semana seguinte.

O crepúsculo da quinta-feira 6 de maio teve um tom mais rubro do que de costume. Mobilizados para o duelo das 19h30, 35 mil colorados e coloradas migraram cegamente à Padre Cacique, certos de que, naquela data, apenas para o Gigante os caminhos poderiam convergir. Iniciado o confronto, se é verdade que as arquibancadas ainda não estavam tomadas, fruto do caótico trânsito de final da tarde na capital gaúcha, já eram numerosos os que cantavam nas arquibancadas do Beira-Rio.

Tão intenso quanto o movimento de chegada ao estádio era a cantoria que dele emanava. Irretocável no Beira-Rio até então, acumulando três vitórias no torneio continental, o Inter pisou em campo sabendo que, por mais dura que fosse, a missão nada tinha de impossível. Ideia comprada pela torcida, que fora motivada, dias antes da partida, por ninguém menos do que o ídolo Guiñazu, quando este confidenciou que “"A energia que vem da arquibancada faz a diferença. Ela contamina todo mundo em campo.”

Em perfeita sintonia, grama e cimento sufocaram os argentinos, não permitindo um mísero minuto de descanso. Conduzidos - time e torcida - por um endemoniado D’Alessandro, os colorados lamentaram chances perdidas por Andrezinho e Walter, criadas pelo camisa 10, e também finalização do argentino que explodiu no travessão.

A chegada do intervalo assustava os mais pessimistas, mas foi neste momento que, uma vez mais, o regente Andrés apareceu. Em passe milimétrico, deixou Andrezinho de frente para o goleiro. Genial, o anjo das cobranças de falta serviu Alecsandro, que, com a meta aberta, teve o simples trabalho de completar. Agora, faltava um.

Abençoado momento dos vestiários que permitiu ao Gigante descansar. Pulsando intensamente, o quarentão Beira-Rio precisava de um respiro. Breve, é claro, pois poucas são as construções tão habituadas ao delírio das massas quanto a casa colorada. A importância do quarto de hora de relaxamento foi comprovada quando, logo cedo na etapa final, D’Alessandro, mais uma vez ele, lançou Eller. O zagueiro, cobrindo a lateral-esquerda, avançou e suspendeu. Na cabeça de Walter. Tínhamos virado. Juntos.

Encaminhada a vaga, o escrete colorado não cessou. Como poderia, se era agora, finalmente, o instante em que sentíamos os primeiros ares de classificação que despontavam no horizonte? As chances perdidas até motivaram um suspiro ou outro de nervosismo, mas a expulsão de James Rodríguez, jovem craque do rival, e o sucessor apito final, libertaram, de uma vez por todas, o otimismo alvirrubro. Classificados estávamos, graças à determinação de um Estádio que não cansou de jogar.

Sinergia: clube e povo estavam entre os oito melhores da América

 

 


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