21/08/2019

Memórias de Maracanã: a história de um Gigante no Maior do Mundo

Templo do futebol, erguido para ser o Maior do Mundo, recebeu 200 mil pessoas no principal público da história do esporte. Heterogêneo nos setores, das cadeiras às gerais parecia ter capacidade para abraçar todas as muitas faces da população brasileira. Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã ostenta biografia equiparada por poucas canchas no planeta.

Inaugurado para a Copa de 1950, já em sua primeira década o Maraca recebeu partidas do Clube do Povo do Rio Grande do Sul. Nos anos 60, vieram novos embates - e triunfos - do Colorado contra equipes cariocas, a exemplo da vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense em 1968, gol de Dorinho. O resultado, além de alimentar a caminhada vice-campeã nacional, também contribuiu para consolidar o Inter Brasil afora, como comprova o artilheiro da ocasião:

Foi nos anos 1970, contudo, que Inter e Maracanã se aproximaram de vez. Década de Disco na música, Pica-Pau e as Panteras na TV, surgimento da Apple nas ciências, e consagração do Clube do Povo no futebol. Proprietário de um Gigante, ainda mais acostumado a grandes públicos, o Colorado teve no Maior do Mundo uma extensão para seus domínios.

Simpático aos templos populares, o dono do Beira-Rio soube atuar tanto para coreanos, quanto geraldinos, e assim encantou os fãs do principal esporte brasileiro, fossem eles rubro-negros, vascaínos ou tricolores. Lembre agora capítulos brilhantes do Internacional no Maracanã.

O primeiro pódio no Brasileirão passou pelo Maraca

Foto: Jornal do Brasil

O Campeonato Brasileiro de 1972 foi a segunda edição da história do torneio, criado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) para assumir o posto de principal certame nacional da época. Dividido em três fases, o Brasileirão tinha seus dois primeiros momentos disputados em chaveamentos, para, só então, avançar aos mata-matas, realizados a partir das semifinais. 

Quinto colocado em 71, o Inter, habituado ao pódio do Robertão, estava decidido a dar continuidade ao caminho de protagonista do futebol brasileiro, voltando às primeiras posições na tabela. Para isso contava, entre outros, com um adaptado Figueroa na zaga, a liderança de Cláudio Duarte na lateral, a maestria de Carpegiani na meia cancha, o faro artilheiro de Claudiomiro com a 9, e, ainda, a estrela do ídolo Valdomiro, na ponta direita.

Figueroa, Cláudio Duarte, Schneider, Tovar, Carpegiani, Valdomiro, Claudiomiro, Jorge Andrade, Pontes, Bráulio e Volmir: a força do Inter de 1972

Líder de seu grupo, o Inter avançou aos quadrangulares para, ao lado de Vasco, Flamengo e Cruzeiro, disputar uma vaga entre os semifinalistas. Na estreia da chave, diante de um Beira-Rio lotado, o Clube do Povo conquistou triunfo emocionante sobre os mineiros, garantindo três pontos de segurança para a segunda rodada, que seria realizada no dia 14 de dezembro, no Maracanã, contra o Rubro-Negro comandado por Zagallo.

Valdomiro, nos acréscimos, decretou a vitória do Inter sobre o Cruzeiro

Mais de 66 mil pagantes abarrotaram as arquibancadas do Maracanã para o confronto de rubros, um negro, e outro alvi. Multidão justificada pela importância do duelo aos mandantes, que, após empate contra o Vasco na primeira rodada, precisavam de três pontos para seguir lutando pela liderança da chave. Atual campeão estadual, o clube carioca contava com o tricampeão mundial Paulo Cezar Caju em seu elenco, e apostava alto no sonho do título nacional.

Paulo Cezar Caju com as cores da seleção. Foto: Arquivo/CBF

Empurrados pelos milhares, os donos da casa começaram a partida pressionando. Logo a um minuto, Caju deu grande assistência para Fio, que chutou forte, tirando de Schneider. A bola explodiu o travessão e saiu em tiro de meta, servindo de primeiro alerta ao time colorado, que aos poucos se soltou. Aos sete, Claudiomiro foi derrubado na entrada da área. Falta, que o especialista Valdomiro cobrou com perfeição, sem qualquer chance de defesa para o goleiro Renato. 

Relembre golaços de Valdomiro:


O gol logo se mostrou importantíssimo ao Inter, que passou a dominar o jogo, abusando da qualidade de Carpegiani e Tovar para ditar o ritmo dos movimentos, sabendo forçar contra-ataques ou segurar a bola quando necessário. Desta forma, a primeira etapa foi encerrada com triunfo parcial do Colorado, que regressou dos vestiários com alterações. No lugar do lesionado Claudiomiro, quem veio a campo foi o talismã Escurinho. Já na vaga de Bráulio, Dino Sani mandou a campo Tovar, apostando em exercer controle ainda maior sobre a meia cancha carioca, e adaptando a formação gaúcha para um 4-3-3.

Saudoso artilheiro Claudiomiro, eterno ídolo colorado

Uma indigesta surpresa, entretanto, abalou o planejamento colorado para os últimos 45 minutos. Instantes após o reinício da partida, o Flamengo chegou com Caju, pela direita, em jogada parecida àquela que inaugurou o duelo. Desta vez, foi o próprio ponta quem chutou, acertando a trave. Para azar do Inter, a bola reboteou para dentro da área, e se ofereceu livre aos pés de Arílson, que teve o simples trabalho de completar à meta aberta, igualando o escore.

Matéria da Revista Placar sobre Dino, em 1973

Mas o gol não chegou a abalar o Clube do Povo. Pelo contrário, injetou o ânimo necessário no escrete alvirrubro, que, superior tanto técnica quanto fisicamente, empurrou os mandantes para seu campo de defesa. Pressionando, aos 15 o Inter encontrou raro espaço na marcação flamenguista, oferecido aos pés de Tovar, que não teve dúvidas antes de mandar um foguete de longa distância. Renato aceitou, e o Colorado retomou a dianteira no marcador, calando o Maracanã.

 

Nocauteado, o time carioca não foi capaz de acompanhar Volmir quando, cinco minutos após o tento de Tovar, o ponta-esquerda dominou na intermediária, avançou a dribles, e, na saída do goleiro, tocou no canto. A bola morreu no fundo das redes, consagrando o último gol da noite, apesar das outras grandes oportunidades criadas pelo Colorado na meia hora final de confronto. Nas raras subidas da equipe mandante, Figueroa, impecável como sempre, garantiu segurança ao arqueiro Schneider, que sequer precisou sujar seu uniforme. Inter 3 a 1, e a vaga nas semifinais fica ainda mais próxima.

Manchete do Jornal dos Sports (RJ), reconhecendo a gigante atuação de Don Elias

O Brasil apostou na ‘Máquina’. O povo, na sua Academia.

O Inter chegou reforçado para a disputa do Brasileirão de 1975, contando com a contratação de Flávio Minuano, centroavante cria do Celeiro de Ases que retornava ao Clube após vitoriosa passagem por Portugal. Dono da camisa 9, o artilheiro formou ao lado de Lula, que desembarcara ao Colorado na temporada anterior, e Valdomiro, ídolo da torcida, o trio de ataque vermelho no ano do primeiro título nacional. 

Flávio encerrou o Brasileirão como artilheiro, marcando 16 gols

Campeão gaúcho pela sétima vez consecutiva no mês de agosto, o Inter comprovou o bom momento vivido na fase inicial do Brasileirão, encerrada na ponta da chave. O clube voltou a ser primeiro colocado na etapa seguinte, avançando, assim, para o terceiro e último instante de disputa em grupos, o qual superamos na segunda posição, acompanhando os pernambucanos do Santa Cruz. Classificados, seguimos para as eliminatórias, realizadas a partir da semifinal. Na luta por vaga à decisão, o adversário colorado seria o Fluminense, no Rio.

Eterno elenco proprietário do Brasil

Na época, o Fluminense contava com a famosa 'Máquina tricolor', geração histórica que começou a ser formada no início da década e atingiu seu ápice em 75, com a contratação da 'Cereja do Bolo' Rivellino, vindo do Corinthians. Campeão estadual na temporada de estreia de Riva, o tricolor das laranjeiras chegou, inclusive, a superar, por 1 a 0, o Bayern de Munique de Gerd Müller, Beckenbauer, Sepp Maier e Rummenigge, em amistoso disputado no Maracanã. 

Com este invejável currículo, o esquadrão treinado pelo bicampeão mundial Didi, e que ainda contava com grandes nomes como Félix, Marco Antônio, Carlos Alberto Torres e Paulo Cézar Caju; soava imbatível para a imprensa do centro do país. Felizmente, a genial teimosia de Rubens Minelli o impediu de concordar com a maioria.

Manchete do Jornal dos Sports (RJ), na véspera da semifinal

No dia 7 de dezembro, mais de 100 mil pessoas lotaram o Maracanã para a partida, público consequência de intensa mobilização dos veículos de imprensa, que convocaram torcedores de outros clubes cariocas a apoiarem o Fluminense em nome do futebol do estado. A festa parecia pronta, mas, para azar dos mandantes, um péssimo convidado decidiu atrapalhar a celebração. Cão de guarda colorado, Caçapava esteve, desde o primeiro minuto, intransponível, assustando as estrelas tricolores com exibição incansável.

Rubens Minelli, o perfeccionista

Bem postada defensivamente, a Academia do Povo não deu espaços à Máquina, que, embora dona da posse de bola, pouco ameaçava, reduzida a insossos passes laterais. Por sua vez o Inter, nos momentos em que teve a redonda, assustava em contra-ataques puxados, principalmente, por Falcão e Carpegiani, extremamente entrosados com os velocistas Valdomiro e Lula nas pontas.

Inquieta com a postura inabalável dos comandados de Minelli, a equipe carioca começou a dar espaços para a genialidade dos magos colorados. O primeiro dos erros imperdoáveis se deu aos 33 da etapa inicial, quando o flanco direito tricolor se ofereceu aberto a Falcão. Maior camisa 5 da história do futebol brasileiro, o ainda jovem Paulo Roberto tabelou com Lula. No último toque que deu na bola, de trivela, deixou o camisa 11 a poucos passos da pequena área, na medida para a bomba de canhota, que superou Félix, beijou a trave e explodiu nas redes.

Nem mesmo a volta dos vestiários mudou o cenário da partida. Investindo em jogadas individuais e chutes de longa distância para furar o ferrolho alvirrubro, o Fluminense raramente triunfou sobre a determinação gaúcha. Nos escassos momentos em que Figueroa e Hermínio foram superados, Manga esteve preciso e arrojado como sempre. No setor ofensivo, a  entrada de Jair, na vaga de Valdomiro, tornou ainda mais intensa a atuação colorada.

Manga, legítimo paredão colorado

Foi exatamente dos pés de Jajá que o último tento surgiu. Ainda não coroado Príncipe, o garoto, recentemente campeão da Copa São Paulo de Juniores, escapou do marcador e lançou Falcão. O camisa 5 dominou no peito e devolveu para Jair, que vestia a 13. Exibindo tranquilidade digna dos mais experientes, viu Carpegiani infiltrando na defesa adversária e deu precisa assistência com a canhota. Desesperado, Silveira tentou conter o número 10 do Inter levantando bola, grama e Paulo. Terminou apenas com a relva.

 

No domínio, Carpegiani aplicou um magistral e desconcertante drible da vaca no defensor carioca. A bola correu precisa, como se estivesse presa aos pés do camisa 10 por um elástico. Já na altura da marca do pênalti, quando Félix deixava o gol atabalhoado, chuteira e encouraçada tornaram a se encontrar. Desta vez, para um sublime e elegante arremate, que em um toque de cobertura voou soberana aos barbantes cariocas. Inter, futuro campeão, finalista.

Na falta de Falcão e Valdomiro, Chico Spina marcou um gol para cada

O primeiro semestre de 1979 não foi nada fácil para o Clube do Povo, que encerrou o Campeonato Gaúcho na simplória terceira colocação. Uma melhora para o segundo semestre era obrigação, sentimento compartilhado pela diretoria que tratou de encorpar o elenco colorado. Na casamata chegou Ênio Andrade, acompanhado pelo preparador físico Gilberto Tim. Já dentro de campo, regressou Benítez, acompanhado, enquanto reforço, por Mário Sérgio e Bira.

Ênio Andrade no pátio do Beira-Rio

As mudanças injetaram novo gás no grupo alvirrubro, que realizou segura campanha na primeira fase do certame nacional, encerrada com seis vitórias e três empates. Mesmo número de igualdades alcançado em novo octogonal, no qual alcançamos, ainda, outros quatro triunfos. Assim, chegamos ao quadrangular que antecedia às semifinais.

Disputado contra os mineiros de Atlético e Cruzeiro, além do esmeraldino Goiás, o chaveamento esteve marcado por espetacular triunfo sobre o Cruzeiro, no Mineirão, terminado com o 3 a 2 no placar. A vitória, acompanhada de outra em cima dos goianos, e um WO do Atlético-MG, garantiram o Inter nos mata-matas.

Nas semifinais, o Clube do Povo enfrentou o Palmeiras, em duelo que ofereceu ao público 180 minutos jogados no mais alto nível. A partida de São Paulo se destacou pela espetacular virada do Inter, que, com show de Falcão, aplicou inesquecível 3 a 2. No Beira-Rio, um tenso e encrespado 1 a 1 foi suficiente para devolver o Colorado, três anos depois, à decisão do Brasil. Agora, o adversário seria o Vasco.

O elenco jamais derrotado

Disputada em partidas de ida e volta, a final teve seus primeiros 90 minutos realizados no dia 20 de dezembro, às 21h15, no Maracanã. O chuvoso dia até afugentou parcela do público, mas outras seis dezenas de milhares marcaram presença, empurrando, das gerais às arquibancadas, o cruz-maltino. De sua parte, o Inter amargava as ausências dos injuriados Falcão e Valdomiro. Mesmo assim, exímio conhecedor dos atalhos do ‘Maraca’, o Clube do Povo soube sofrer, neutralizando as principais jogadas vascaínas, apesar dos constantes esforços de Roberto, o Dinamite.

Confiante, o Colorado fez do limão, a limonada. Se não tinha dois de seus principais atletas, foi inteligente em explorar Chico Spina, camisa 7 da noite, e Valdir Lima, dono da 5, desconhecidos dos cariocas. Assim, aos 28, Mário Sérgio, com sua sempre mortal perna canhota, acionou Valdir, tirando proveito do espaço entre as linhas vascaínas. O substituto do Rei foi soberano ao perceber Chico partindo da direita para a esquerda, e lançou o ponta.

Spina dominou com o pé direito, adiantando, e logo cortou, usando a mesma perna, para o lado oposto, colocando no meio das pernas do defensor Paulo Cesar. Uma vez com o campo aberto, o camisa 7 ajeitou para o chute e, no quarto toque na bola, fuzilou, sem chances para Leão. Golaço, no ângulo, comemorado por seu autor da maneira que faziam os clássicos artilheiros: dando socos no ar.

Aberto o placar, o Vasco se atirou ainda mais ao ataque. Nos minutos de fechamento da etapa inicial, Catinha, por duas vezes, desperdiçou chances reais, que empolgaram sua torcida, que se levantou nas arquibancadas. Às vésperas do apito final, Bira adiminuiu a euforia adversária, aproveitando erro da zaga e exigindo milagre de Leão. Terminados os 45 minutos, estava garantida a parcial vitória alvirrubra.

Reiniciado o prélio, os mandantes se mostraram mais ansiosos. Insistindo em jogadas excessivamente verticais, acumularam passes errados, e, em um destes, após interceptação da zaga, a bola sobrou com o incansável Chico Spina na altura do grande círculo. Com espaço, o artilheiro da noite superou dois adversários na matada, avançou até o campo carioca e tocou para Bira.

O centroavante, preciso, devolveu a bola para o camisa 7, que venceu Gaúcho na velocidade, e fuzilou de canhota. Inter e Chico chegavam a dois, enquanto o Vasco seguia zerado. Alegre, o artilheiro da noite celebrava dançando, honrando a terra do samba.

O revés obrigou os donos da casa a serem ainda mais incisivos, criando, desta forma, boas oportunidades nos primeiros instantes após o marcador ser alterado, quase todas resultado de bolas alçadas. Com o tempo, no entanto, o Clube do Povo se reencontrou no jogo, e não voltou a ser ameaçado. 

Confira os melhores momentos da partida:

Essencial, o 2 a 0 correspondeu ao penúltimo capítulo do ‘Time que Nunca Perdeu’. Título invicto, inédito e jamais igualado, conquistado pelo Colorado varonil, que tantas vezes transformou o Maracanã em uma sucursal do Beira-Rio. Que consigamos repetir este feito na noite desta quarta-feira. Vamos juntos, torcida colorada, acreditando até o final. Vamo, Inter!


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