17/06/2019

Há 47 anos, Beira-Rio recebia o maior público de sua história

Há 47 anos, a principal rivalidade brasileira se uniu no melhor e mais moderno estádio gaúcho, oferecendo à cidade de Porto Alegre seu maior público para uma partida de futebol na história, com o objetivo de torcer contra o Brasil. Mais de 100 mil colorados e gremistas chegaram ao Gigante de todas as formas, por terra e pelas águas, decididos a lecionar geografia para Zagallo, técnico da Seleção, e sua comissão. O recado, uníssono, era claro: O país vai até o Chuí!Indignada com a não convocação de atletas da dupla Gre-Nal para a disputa da Copa Independência, campeonato que seria disputado em referência aos 150 anos da emancipação brasileira, a torcida gaúcha transformou fato recorrente daquela época - confrontos entre combinados locais e selecionado nacional - em uma verdadeira guerra. Entre as ausências mais sentidas estiveram Everaldo, lateral-esquerdo gremista, titular na conquista do tricampeonato mundial no México, e Claudiomiro, à época um promissor centroavante colorado.

O jovem Claudiomiro, artilheiro desde o início de sua carreira

O público daquela tarde, destaque-se, permanece incerto. Há quem fale em 106 mil pessoas. Outros apostam na casa dos 115, existindo também os mais pessimistas, que acham que foram algumas centenas a mais do que 100 mil. Fato é que aquela foi uma multidão nunca antes vista, inclusive entre profissionais de imprensa, que superlotaram suas cabines.

Trinta minutos antes do início do confronto, os portões foram fechados. Não existia espaço para mais ninguém, embora milhares seguissem do lado de fora do estádio, em quilométricas filas de gaúchos entusiasmados. Felizmente, não existiu foco algum de confusões, provavelmente graças ao anúncio de que a transmissão da partida via TV seria estendida a Porto Alegre, o que, inicialmente, não estava previsto. 

Quando subiram a campo, estado e nação exibiam seus uniformes mais tradicionais. Enquanto os tricampeões Brito, Piazza, Clodoaldo, Rivellino, Jairzinho e Paulo Cezar Caju vestiam, junto de seus companheiros, amarelo e azul; os gaúchos se postavam com fardamento completamente branco, à exceção de alguns detalhes nas cores da bandeira do Rio Grande do Sul. Já nas arquibancadas, o colorido era exclusivamente riograndense, sem espaço para menção alguma ao Brasil.

Iniciada a partida, passados apenas dois minutos o Gigante explodiu. Pela primeira vez em três anos, Carbone balançou as redes. Um dos melhores do jogo, o volante colorado concluiu, de cabeça, cruzamento perfeito de Claudiomiro, e assim superou Leão. A etapa inicial chegou ao fim com o 1 a 0 no placar, e festa da ensandecida centena de milhares.

Reiniciado o jogo, o que se viu foi um ritmo muito mais intenso do que o dos 45 minutos iniciais. Logo aos sete, Marco Antônio avançou pela esquerda e levantou na medida para Jairzinho empatar. Na comemoração, o ‘Furacão da Copa de 70’ correu na direção da torcida gaúcha e fez questão de beijar o escudo de sua camisa, sendo prontamente respondido com intensos apupos e severas vaias.

Pouco depois, aos dez, Valdomiro aprontou as suas pela direita e cruzou. A zaga afastou mal, e Carbone pegou o rebote. De fora da área, o volante colorado anotou uma pintura, em chutaço com curva que morreu no canto direito da goleira canarinho. A festa gaúcha, contudo, foi tão breve quanto a anterior brasileira, pois, aos treze, Caju empatou, completando bonita tabela que contou com participação de Leivinha e Rivellino. Assim que viu a bola superar a linha do gol, Paulo Cezar disparou: “devolvam meu passaporte, quero voltar para o Brasil”.

Quando o jogo caminhava para o fim, e o empate parecia definitivo, o lado alvirrubro da seleção gaúcha brilhou, esbanjando entrosamento. Valdomiro evoluiu pela ponta-direita e deu assistência para Claudiomiro. Em cabeceio mortal, desferido para baixo, como o figurino manda, o centroavante do Clube do Povo superou Leão, colocando os riograndenses à frente do marcador. Mais uma vez, no entanto, a vantagem dos donos da casa no escore não durou muito.

 

Ao longo de sua carreira, Valdomiro se destacou pela perfeição com que batia na bola, tanto em cruzamentos, quanto arremates.

Aos 40 minutos, Caju armou excepcional arrancada. O ponteiro superou o miolo da meia-cancha gaúcha e encontrou Rivellino, livre na entrada da área. O bigodudo, criador do elástico, bateu forte, de canhota, e superou Schneider, dando números finais à partida. Um jogaço, marcado por muita vibração e luta, sempre pela posse de bola. Pautado por golaços e exibições de primeiríssimo nível, que estiveram à altura do público que lotou o Beira-Rio.

Ficha Técnica da partida:

Data: 17 de junho de 1972

Amistoso

Público: 106.554 pessoas

Árbitro: Robert Heliés (França)

Gols: Carbone, aos 2min do 1°T e aos 10min do 2°T, Jairzinho, aos 7min do 2°T, Paulo Cezar Caju, aos 13min do 2ºT, Claudiomiro, aos 38min do 2°T, e Rivelino, aos 40min do 2°T.

Brasil: Leão (Sérgio); Zé Maria, Brito, Vantuir e Marco Antônio; Clodoaldo, Piazza e Rivelino; Jairzinho, Leivinha e Paulo Cezar Caju. Técnico: Zagalo.

Seleção Gaúcha: Schneider; Espinoza, Ancheta, Figueroa e Everaldo; Carbone, Tovar, e Torino; Valdomiro, Claudiomiro e Oberti (Mazinho). Técnico: Aparício Vianna e Silva.

Confira, em reportagem especial produzida pela Rede Globo no ano de 2012, os gols do jogo e entrevistas com os personagens da partida:


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