28/02/2019

Histórias de Libertadores: A fumaceira de Quilmes

Observados por um incrédulo Desábato, Guiñazu e Sorondo celebram a histórica classificação colorada na Argentina

Diferente do que a invicta conquista colorada possa sugerir, a edição da Sul-Americana de 2008 não foi nada fácil. Pelo contrário, raras foram as vezes em que o torneio reuniu tantas equipes tradicionais brigando pelo título. Entre os semifinalistas, por exemplo, além do Inter, estiveram River Plate, campeão do Torneo Clausura da época, Estudiantes de La Plata, que viria a conquistar a Libertadores no ano seguinte, e o gigante mexicano Chivas Guadalajara. O alto nível dos clubes, inclusive, tornava no mínimo provável que estes voltassem a se encontrar em um futuro não muito distante, brigando por outros títulos continentais.

Quis o acaso que os argentinos do Estudiantes fossem os primeiros conhecidos a cruzar o caminho do Clube do Povo, dessa vez nas quartas-de-final da Libertadores de 2010. E, se o confronto de dois anos antes fora emocionante, se estendendo para além dos tradicionais 180 minutos para ser decidido apenas no segundo tempo da prorrogação após Nilmar marcar o gol do título do Inter; o duelo do início da segunda década do século XXI não ficou para trás.

A primeira partida foi disputada em Porto Alegre, diante de mais de 40 mil colorados que assistiram a um jogo duríssimo, em que os espaços eram escassos. Com muita luta, o Inter conseguiu o 1 a 0 após gol de Sorondo aos 42 minutos da etapa final, assim levando importante vantagem para a Argentina.

Colorado venceu por 1 a 0 em Porto Alegre - gol marcado por Sorondo de cabeça

O jogo de volta foi disputado no Estádio Centenário, em Quilmes, já que a casa do Estudiantes, em La Plata, estava passando por reformas. Enfrentando o atual campeão da América, o Inter sabia que para triunfar contra um adversário temido por quase todo um continente seria necessário pôr à prova a tradicional mística colorada. E quando os onze titulares de Jorge Fossati entraram em campo, a torcida pôde acreditar que aquela seria uma noite especial.

Por ironia do destino, uma vez que Estudiantes tinha o vermelho como cor predominante de seu uniforme, o Inter não teve alternativa senão ir a campo todo de branco, assim como na final do Mundial de Clubes. Bons ventos pareciam soprar na direção da equipe gaúcha, fazendo sorrir a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande, que lembrava dos feitos de Fernandão, Iarley, Gabiru e companhia. Ficava claro que, se o clube argentino merecia respeito e atenção, não menos importante era a história multicampeã do Inter. Se o acanhado estádio lotado e a camisa adversária assustavam, também aterrorizados os argentinos deveriam se sentir enfrentando o Clube do Povo do Rio Grande do Sul.


Clube do Povo deu mais uma demonstração de sua força

Os primeiros minutos de partida, no entanto, obrigaram a torcida colorada a abandonar a nostalgia das boas lembranças do passado, que deram lugar ao nervosismo. O Estudiantes, incendiado por sua torcida, desde o início do jogo adotou postura agressiva, e, regido por Verón, conseguiu abrir 2 a 0 antes dos vinte e cinco minutos do primeiro tempo. Como o resultado já garantia a classificação do time da casa, os argentinos passaram a cozinhar o jogo, seguindo à risca a cartilha ‘matreira’ que faz parecer que os hermanos nasceram prontos para jogar a Libertadores.

Mesmo com as mudanças do técnico Jorge Fossati, que deixaram o Inter mais ofensivo, o panorama da partida não se alterou no segundo tempo. Os minutos passavam, a tensão crescia, e a classificação parecia cada vez mais distante. À exceção de falta cobrada por Andrezinho e de bom chute de Walter, o Colorado tinha dificuldades em chegar ao ataque.

Duas lendas: D'Alessandro e Verón disputam a bola em Quilmes

O caldeirão de Quilmes fervilhava com a festa da torcida da casa, comemorando a vaga que já parecia garantida. Os próprios jogadores do Estudiantes inflavam seus torcedores, que retribuíam acendendo cada vez mais sinalizadores. O goleiro Orión mal podia ser visto, em meio à espessa nuvem de fumaça que partia da multidão localizada atrás do seu gol. Enquanto isso, Verón prendia a bola, cavando faltas e laterais, deixando o tempo passar. Mas, aos 43 minutos, La Bruja errou.

Por mais que fosse uma lenda viva, o capitão do Estudiantes não conseguiu ser mais forte do que a tradição colorada, que não o deixaria passar impune tentando repetir o que Iarley e Rubens Cardoso haviam feito com maestria no Japão, quando vestindo o mesmo branco que o Inter usava em Quilmes, prenderam o Barcelona em seu campo de defesa entre faltas, laterais e escanteios. Dessa forma, faltando menos de dois minutos para o fim do tempo regulamentar, a bola voltava para a equipe gaúcha, que tinha tiro de meta para Abbondanzieri cobrar.

O multicampeão goleiro lançou Walter, na esquerda da intermediária de ataque do Inter. O centroavante matou a bola no peito e a protegeu com o seu pé direito, esperando a aproximação de um segundo defensor adversário para então fazer o passe para Andrezinho. Com um giro perfeito, o meio-campista se livrou do primeiro marcador, ganhando espaço para pensar. Foi neste momento que Giuliano percebeu uma lacuna na fechada defesa argentina e se projetou. Esbanjando talento, Andrezinho deu assistência genial para o jovem camisa onze colorado. Neste instante, o tempo parou.


Giuliano foi um dos destaques do Colorado na Libertadores de 2010

Eram cerca de 500 colorados e coloradas nas arquibancadas do Estádio Centenário. Outros milhões espalhados pelo mundo. Em comum, nenhum destes conseguia enxergar o que estava acontecendo graças a fumaça dos sinalizadores, que prejudicou a visão tanto dos que estavam na Argentina, concentrados atrás do gol oposto ao que Giuliano se preparava para fuzilar, quanto dos que acompanhavam pela TV, sofrendo com a prejudicada imagem das transmissões. Mas a cegueira não chegou até o jovem goleador colorado, que com o pé direito chutou rasteiro. Como pôde, Orión tentou - e quase conseguiu - fazer a defesa, mas não existia catimba ou bruxaria alguma que os argentinos pudessem fazer. De mansinho, chorosa, a bola entrou no canto. Gol do Inter, e o Centenário se transformava em um Beira-Rio.

O apito final veio após três minutos de acréscimos que em nada alteraram o resultado da partida ou a classificação do Inter. Assim que o jogo foi encerrado, D’Alessandro e Walter dispararam na direção da torcida gaúcha, subindo no alambrado para comemorar junto às centenas de enlouquecidos. Os jogadores argentinos não gostaram, e, irritados com a desclassificação, provocaram uma briga generalizada no gramado. Entretanto, a confusão em nada diminuiu a alegria dos classificados, que transformaram o vestiário de Quilmes em um verdadeiro carnaval, festejando e cantando sem parar.

Depois de quatro anos, o Inter voltava a uma semifinal de Libertadores. Assim como na fase de quartas-de-final, o adversário não foi inédito na história colorada. Agora, vinha o São Paulo, derrotado na final de 2006, e que seria novamente superado pelo Clube do Povo na campanha do bicampeonato. Na decisão mais um velho conhecido, o Chivas, que em 2008 fora o adversário colorado nas semifinais da Sul-Americana. Nenhum reencontro, contudo, teria acontecido não fosse o gol na nebulosa Quilmes. Nenhuma taça seria conquistada não fosse o peso da camisa vermelha - e branca -, respeitada em qualquer canto do continente.

Festa colorada em Quilmes: Inter acreditou até o final para sair classificado


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