10/11/2015

D'Ale: 'Se pudesse, ficaria para sempre'

Por vezes, temos que passar por diferentes lugares até chegarmos a nossa verdadeira casa. Conhecer países e culturas distintas para nos encontrarmos de corpo e alma. É um processo que pode durar anos, mas, quando acontece, nenhum outro lugar parece fazer sentido. No futebol, essa verdade toma ainda mais forma e alguns jogadores parecem destinados a atuarem em um determinado lugar. Ao que tudo indica, esse é o caso de Andrés Nicolás D’Alessandro com o Rio Grande do Sul. Mais do que a idolatria da torcida colorada, os títulos conquistados e as vitórias em Gre-Nais, o camisa 10 criou tamanha identificação com o povo e a cultura gaúcha, que mais parece ter nascido por aqui.

Depois de quase oito anos desde a sua chegada, não é apenas D’Ale quem está completamente adaptado à cidade. Sua família também. Não é à toa que ele e sua esposa decidiram por dar nacionalidade brasileira ao terceiro filho, Gonzalo, nascido em agosto deste ano. Além do chimarrão à moda gaúcha, o argentino também incorporou algumas expressões típicas daqui, o que rende brincadeiras entre os amigos. “O pessoal pega muito no meu pé quando vou para a Argentina. Pelo ‘bah’, o ‘né’. Quando dou uma entrevista na Argentina, de repente, sai uma palavra em português ou o sotaque daqui. Eu falo em espanhol, mas como se estivesse falando em português. Fica meio estranho”, revela aos risos.

Levantador nato de taças, o gringo faturou recentemente, mais uma, mas esta fora dos gramados. Em cerimônia na Câmara de Vereadores, foi nomeado com o título de Cidadão de Porto Alegre, prova nítida da sua identificação com o povo gaúcho e mais um momento de emoção para o craque. Nesta edição, a Revista do Inter traz uma entrevista inédita e exclusiva com o capitão. Durante a “resenha”, D’Alessandro fala como ele, o Andrés Nicolás, e sua família adaptaram-se rapidamente ao Rio Grande do Sul, da sua química com o Inter e do futuro, os planos para seguir em Porto Alegre após a aposentadoria e continuar trabalhando em alguma outra área do Clube. Emocionado e com os olhos marejados, o capitão disse ainda que não consegue se imaginar saindo do Inter: “Se eu pudesse, ficaria pra sempre”. Confira a íntegra da entrevista na Revista do Inter, edição 110.

Revista do Inter: Você passou por diferentes times e países antes de vir para Porto Alegre. Qual era a tua expectativa quando veio jogar no Inter?

D’Alessandro: Nesse momento, não imaginava nada. De repente, apareceu um clube brasileiro que eu conhecia por acompanhar o futebol daqui. O Inter, campeão do mundo em 2006, também acompanhei, apesar de estar jogando fora. Conhecia bastante, pelos argentinos que jogaram no Brasil, na época, como Mascherano e Tévez. Acompanhava, mas nunca pensei nessa possibilidade até aquele momento em que o Inter chegou com uma proposta muito concreta. Uma convicção muito forte do clube de me contratar, através do Fernando Carvalho e do saudoso diretor de futebol Sílvio Silveira. Em um primeiro momento, fiquei surpreso. Mas depois isso mexeu comigo, e jogar no Brasil passou a ser uma conta pendente. Conversei com meu empresário, achei que seria legal também pela proximidade da Argentina.

RI: Quando você chegou aqui, foi uma comoção na cidade. O aeroporto ficou lotado e teve uma grande festa por parte dos colorados. Qual foi a tua primeira impressão?

D’Ale: Eu não acreditei. Talvez, o pessoal me conhecesse pela Seleção Argentina ou mais pelo que fiz no River, anos atrás. Fiquei surpreso e comovido pela maneira que fui recebido, muita expectativa por parte do torcedor. Não sei quantas pessoas tinham no aeroporto, mas isso cria uma pressão muito grande no atleta que está chegando. Eu tinha que corresponder à essa expectativa, não era fácil. Só que a adaptação foi muito rápida pra mim. Foi como se eu já conhecesse o clube, o clube me conhecesse, eu conhecesse a cidade, o torcedor me conhecesse. Foi tudo rápido. Foram muitos fatos marcantes e isso fez com que eu me aproximasse mais do torcedor, e a cada dia mais.

RI: Tem como comparar teu carinho pelo River com o que tem pelo Inter?

D’Ale: Passei praticamente 15 anos dentro do River, a metade da minha vida. O River me deu tudo. Todas possibilidades que eu tive e a minha família teve lá atrás foram por causa do River. Mas, comparando como atleta profissional, joguei muito mais aqui do que no River, onde joguei três anos. Claro que representa muito na minha vida, lá ganhei três campeonatos em um curto período. Mas aqui já se foram sete anos. Os títulos são muito mais importantes. Claro que tem a ver o tempo, com o que tu cria com a torcida, onde vive, onde está. Isso tem muito a ver, mas nunca esqueço. Não tem como comparar, são duas coisas diferentes. Mas tento colocar os dois no mesmo lugar. De repente, colocaria o Inter um pouquinho acima.


Camisa 10 colorado costuma ser o protagonista nas grandes decisões

RI: Vocês planejaram o local onde o Gonzalo nasceria?

D’Ale: Nós ficamos sabendo no final do ano passado que a minha esposa estava grávida. Começamos a pensar nas opções. Ou na Argentina, ou aqui. Nós vimos que não tinha porque ir pra lá tendo tudo aqui. Quando falo ter tudo aqui é interiormente, se sentindo bem, adaptado, tendo gente que nos ajuda muito, tendo amigos fora do futebol, o clube nos dando suporte. Tudo que a gente passou aqui também contou, é uma coisa que me deixa feliz, nossa família ter vivido aqui mais de sete anos. É um reconhecimento por tudo que o Clube me deu, porque o Inter tem muito a ver com essa história, como me tratou a cidade. Mesmo sendo colorado e tendo uma identificação muito grande me sinto respeitado pela outra parte de Porto Alegre. Acho que isso ajuda muito.

RI: Você mantém algum hábito típico daqui ou alguma gíria?

D’Ale: O pessoal pega muito no meu pé quando vou para a Argentina. Pelo ‘bah’, o ‘né’. Quando dou uma entrevista na Argentina, de repente, sai uma palavra em português ou o sotaque daqui. Eu falo espanhol, mas como se estivesse falando português. Fica meio estranho. (risos)

RI: Na verdade, a homenagem foi uma mera formalidade, pois o D'Alessandro já é um cidadão gaúcho há algum tempo. Tu te sente um gaúcho?

D’Ale: Eu sou argentino, mas eu já sou gaúcho também, sou parte da sociedade de Porto Alegre. Tento ter uma vida normal, como faz qualquer um. Vou no supermercado, shopping, caminho na rua. Minha vida social é normal e não tem porque ser diferente. Futebol é um trabalho, a única diferença é que saímos na TV e somos conhecidos.

D'Alessandro e sua família: esposa Erica e filhos Santino, Martina e Gonzalo

RI: Dá pra ver que essa homenagem te emocionou. Mas quando você fala na saída do Inter, nota-se que isso mexe contigo. É algo que, se tu pudesse, não faria?

D’Ale: Se eu pudesse, ficaria pra sempre, mas tem uma hora que não vou conseguir mais me mexer. De repente, pode ser medo. Nunca parei pra pensar. Se eu parar pra pensar, neste momento, vou sofrer. Já vou sofrer no momento que acontecer e já vai ser ruim, não vou começar a sofrer agora. Mas o tempo passa e cada dia falta menos. Mas o importante é que o vínculo com o Clube vai continuar pelo resto da vida. Essa história de bandeira para mim, se vai ter ou não daqui a 30 anos, eu vou estar aqui igual. Vou ter meu lugar aqui, vou trazer meu filho, ele vai saber que é gaúcho, nascido em Porto Alegre. Vai saber o que o pai fez no Clube. Mas o meu lugar vai estar aqui, deixando de lado títulos, na relação que se criou entre D’Alessandro e o Inter.

* Confira a íntegra da entrevista na Revista do Inter, edição 110.


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