27/02/2015

Torcida Gre-Nal: em 1967, times e torcedores rivais uniram-se “pelo progresso do futebol gaúcho”

Times de Inter e Grêmio posam junto para a foto no clássico válido pelo Robertão de 1967

O Gre-Nal de número 404, marcado para 18h30 deste domingo, no Beira-Rio, já pode ser considerado histórico. A partir de iniciativa da direção do Sport Club Internacional e após reuniões com a prefeitura, o comando da Brigada Militar e a direção do Grêmio FBPA, houve a confirmação de que haverá um setor com capacidade para duas mil pessoas onde será possível que um sócio colorado leve um acompanhante gremista. Em tempos em que se fala como nunca na violência presente nos estádios e se vê clássicos estaduais Brasil afora com torcida única, colocar duas torcidas rivais no mesmo lugar pode parecer uma ideia inimaginável. No entanto engana-se quem pensa que esta será a primeira vez na história em que isto ocorrerá.

Voltando no tempo, chegamos ao ano de 1967, quando se deu o início do embrião do Campeonato Brasileiro de futebol, a Taça Roberto Gomes Pedrosa, também conhecida como Robertão. Este torneio foi o sucessor da Taça Rio-São Paulo (que tinha o mesmo nome), tendo sido aberta neste ano para equipes de fora dos dois estados protagonistas no futebol brasileiro até então. Além dos principais clubes de São Paulo (Palmeiras, Corinthians, Santos, São Paulo e Portuguesa) e do Rio de Janeiro (Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama, Botafogo e Bangu), Internacional e Grêmio (pelo Rio Grande do Sul), Atlético Mineiro e Cruzeiro (por Minas Gerais) e Ferroviário (pelo Paraná) fizeram parte do certame naquele ano.

Alegando que os custos das viagens para o Rio Grande do Sul seriam muito altos, os clubes de Rio de Janeiro e São Paulo exigiram garantias financeiras da dupla Gre-Nal, o que significava grande presença de público nos estádios para uma maior arrecadação. Nesta época, o Internacional ainda não contava com o Estádio Beira-Rio (este seria inaugurado somente em 1969) e não obteve permissão da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para mandar suas partidas no Estádio dos Eucaliptos, pela sua menor capacidade. Foi, então, acordado pelas direções de Inter e Grêmio que ambos utilizariam o Estádio Olímpico para mandar suas partidas e utilizariam um sistema de caixa-único, onde a renda correspondente à equipe mandante seria dividida entre as duas equipes.

A união entre as direções dos rivais históricos rendeu a convocação de ambas torcidas para também unirem-se em prol do “progresso do futebol gaúcho”, expressão usada pelos jornais da época. No Gre-Nal de número 181, estreia de ambos os clubes no Robertão de 67, ao invés de tirarem as fotos oficiais separadamente, os dois times perfilaram-se com seus jogadores intercalados. Era o início da união entre os dois clubes – e de suas torcidas – que duraria até o Robertão de 68. Apesar da renda deste primeiro jogo ter sido considerada decepcionante por ambas as direções e pela imprensa da época, a ideia de juntar as duas torcidas acabou dando certo. Depois desta primeira partida, os torcedores de Inter e Grêmio passaram a comparecer em grande número nos jogos em que o rival estava em campo.

Bandeiras do time rival eram tremuladas sem nenhum tipo de restrição nas partidas. O clima era festivo, ao mesmo tempo em que incendiado pelas direções, que convocavam seus torcedores para fazer frente aos times de Rio e São Paulo. A união resultou na classificação dos dois times para o quadrangular final juntamente com Palmeiras e Corinthians, deixando para trás os times do Rio de Janeiro. Ao final do certame, o Palmeiras sagrou-se campeão, com o Internacional em segundo, Corinthians em terceiro e Grêmio em quarto lugar. A força do futebol do Rio Grande do Sul era agora de conhecimento nacional. Porém, no ano de 68, esse movimento nas torcidas começa a enfraquecer. Nota-se maior interesse de torcedores do clube rival em jogos que tinham alguma importância para o seu time. Mas, mesmo assim, o sistema de caixa-único foi mantido até o fim do ano e as torcidas permaneceram unidas, mesmo que com uma menor empolgação. E os resultados de campo tiveram o Internacional novamente com um vice-campeonato, representando o estado no quadrangular final da competição. Já em 1969, com a inauguração do Estádio Beira-Rio, os dois times voltam a mandar jogos separadamente e, do ponto de vista econômico, o caixa-único com torcida mista passa a não ser mais tão viável. Foi o fim da união das direções e torcidas dentro e fora de campo.

Agora, quarenta e oito anos depois daquele episódio, teremos novamente as duas torcidas unidas em campo. Desta vez não pelo “progresso do futebol gaúcho”, como se afirmava na época, mas pelo fim da violência nos estádios; pela prova de que colorados e gremistas podem conviver pacificamente nas arquibancadas. E mesmo que a proporção de torcedores rivais que estarão juntos neste clássico de número 404 seja menor que a de 1967/68, a necessidade, a importância e as consequências têm tudo para serem muito maiores.

Setor de Pesquisa Histórica
Cesar Caramês


Outras notícias
Loja Virtual