14/10/2005

JURISTA ESCREVE SOBRE ANULAÇÃO DOS JOGOS PELO STJD

Confira o artigo escrito por Montserrat Martins no jornal Zero Hora da última quinta-feira (13/10):

A magia do esporte
Montserrat Martins/ Psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais 
 
"Passa a bola, pô, não fomeia!"
Guardador de carros para um advogado, numa pelada

Você já viu um empresário, um desempregado, um guri de rua e um médico em igualdade de condições? Então observe, no próximo verão, quando alguém começar a "bater bola" numa praia e se juntar um grupo para uma autêntica pelada.

O envolvimento com o esporte tem o poder mágico de fazer sumir as diferenças de classes, raças, credos e ideologias. Num pedaço de areia de praia, com todos só de calção, o que importa é quem passa a bola direito, quem marca com vontade, o talento de driblar ou fazer gol. Mais democrático que a própria política (na qual temos um operário como presidente, pela primeira vez), o esporte sempre deu oportunidades para nossos Pelés e Daianes dos Santos.

"Era apenas um jogo" - foi uma manchete sobre o tumulto no Beira-Rio, naquele domingo em que os torcedores ficaram sabendo que o seu time havia perdido pontos por decisão do STJD. Se temos de lembrar aos nossos apaixonados torcedores para não extravasar sua revolta uns contra os outros, também é preciso compreender que o futebol, no Brasil, é mais que um jogo. O esporte tem sido uma das práticas mais sadias de nossa sociedade no dia-a-dia, apesar de alguns episódios isolados e lamentáveis. A magia do esporte está no seu poder de unir pessoas de uma diversidade sem precedentes, de atribuir valor a jogadores e torcedores por seu talento, seu espírito de grupo, sua garra e determinação.

Quando esse valor é ameaçado por outros interesses, quando se evidencia a corrupção no futebol, a sociedade como um todo sofre mais uma decepção, é mais um golpe na democracia. O cidadão comum, já tão descrente da política, não tem sequer o prazer de assistir a um jogo e torcer para que "vença o melhor". O poder autoconferido pelas entidades do esporte, no entanto, não está à altura dessa compreensão do que a justiça na competição esportiva representa, como modelo, para nosso povo. Quando uma decisão de Tribunal Esportivo resulta em vantagem para uma agremiação poderosa (de modo a desequilibrar um campeonato antes parelho), nossos jovens entendem que vivemos sob a "lei do mais forte" no mau sentido, da desigualdade de condições.

Sempre há justificativas jurídicas para qualquer decisão, mas as da Justiça Desportiva não seguem os da nossa Constituição: ela ameaça punir os clubes que entrarem na Justiça Comum em busca do direito de defesa, que ela não lhes concede. Até hoje, isso tem sido possível porque consideramos o esporte como mera válvula de escape para outras frustrações, como no "pão e circo" romano. O esporte, como o lazer, não foi reconhecido, ainda, como coisa "séria" da vida civilizada, como a economia e a política. Nesses momentos, o futebol perde o seu encanto, e o nosso povo, mais uma parte da sua esperança. Até que nossa sociedade, através de seus líderes, reconheça que interesses ocultos no mundo do futebol têm de ser examinados à luz da Constituição, como todos os demais direitos da democracia.


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