Fernandão

Fernandão

Fernando Lúcio da Costa

De Goiânia para a eternidade colorada

Nascido em 18 de março de 1978, Fernando Lúcio da Costa estava predestinado a trilhar um caminho sem precedentes na história do Internacional. Forjado nas categorias de base do Goiás, o atacante de 1,90m, destro e de cabeceio potente passou pelo futebol francês (Olympique de Marseille e Tolouse, entre 2001 e 2004) antes de defender o Clube do Povo. Em 2004, aos 26 anos, chegou ao Beira-Rio em uma contratação feita especialmente pelo ex-presidente Fernando Carvalho. “Era um líder, sem falar na contribuição técnica que acrescia à equipe dentro de campo”, destaca o ex-dirigente.


Fernandão, o eterno capitão

Em 10 de julho, quase um mês depois de ser apresentado como novo reforço, Fernandão jogou pela primeira vez com o manto colorado. A estreia no Gre-Nal 360, vencido por 2 a 0 pelo Inter, no Beira-Rio, pelo Brasileirão, é revestida de uma aura mágica. Chamado do banco de reservas pelo então técnico Joel Santana, o atacante entrou no segundo tempo e fez uma estreia de gala. Aos 33min, aproveitou um cruzamento de Élder Granja vindo da direita e cabeceou de forma convicta para colocar a bola no cantinho direito, sem chance para o goleiro Tavarelli. Ato contínuo, Fernandão ajoelhou-se no gramado e recebeu, ao pé do ouvido, a notícia do companheiro Rafael Sobis: “Tu marcou o gol 1000 do Gre-Nal!”. O feito rendeu até placa comemorativa que foi fixada no vestiário do Gigante.


Fernandão está marcando o gol de número 1000 dos Gre-Nais

> Reveja o Gol 1000 do Gre-Nal

Goleador nato

A estatura elevada e a boa técnica fizeram com que Fernandão construísse um variado repertório de gols. Em 190 jogos pelo Inter, marcou 77 vezes de diferentes maneiras. Ainda na temporada de 2004, fez um golaço de bicicleta contra o Coritiba, pelo Brasileirão. Contra o Vitória, no mesmo campeonato, mostrou sua vocação de artilheiro e anotou os gols da vitória de 2 a 1. Já em 2005, fez dois na goleada de 3 a 0 sobre o São Paulo, atual campeão da Libertadores. Também garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Boca Juniors, aos 48 minutos do segundo tempo, pelas quartas de final da Sul-Americana . Apesar do resultado, o Colorado acabou eliminado da competição e, no mesmo ano, também teve o sonho do tetracampeonato brasileiro frustrado por conta de árbitros mal-intencionados. Mas glórias muito maiores estavam por vir.


Fernandão momentos antes de decisão do Mundial FIFA, em 2006

Fernandão leva o Inter ao topo

O calendário marcava dia 1º de janeiro de 2006. A nação colorada ainda tentava digerir o título nacional tirado na ‘mão grande’, sem imaginar que a temporada que estava por começar seria abençoada. Com a braçadeira de capitão, Fernandão conduziria o time aos principais títulos da sua história, em um ano que jamais será esquecido pelos fãs do Inter. A começar pelo almejada conquista da Libertadores da América, em uma campanha antológica.

Vestindo a camisa 9, o atacante desempenhou o fino futebol e foi o artilheiro do time, com cinco gols. Na finalíssima contra o São Paulo, no memorável dia 16 de agosto, coube a Fernandão a honra de abrir o placar, e a imagem da emoção estampada no seu rosto na comemoração segue cristalina na memória dos torcedores. O atacante sabia que o Inter estava mais próximo do que nunca do título sul-americano, que foi, enfim, alcançado mesmo com o empate em 2 a 2 no Beira-Rio (havia vencido o primeiro jogo por 2 a 1, no Morumbi). Ao erguer a cobiçada taça da Libertadores, Fernandão trouxe junto dela os braços de milhões de colorados. Naquele momento, assim como no Mundial, ele foi a personificação da glória alcançada pelo Inter.


Momento histórico: Fernandão ergue a taça da Libertadores 2006

Quatro meses e algumas horas depois, em 17 de dezembro, o eterno capitão protagonizou o momento mais sonhado por qualquer torcedor de um clube. Na distante Yokohama, no Japão, o ídolo ergueu sobre a cabeça o troféu do Mundial de Clubes FIFA. Ao vencer o poderoso Barcelona por 1 a 0, com gol de Adriano Gabiru, o Inter encerrava o ano no topo do mundo. Ninguém no planeta era páreo para o Colorado dos Pampas! E, mais uma vez, Fernandão foi fundamental. O espírito de liderança sempre foi uma de suas principais virtudes, e nesta épica jornada na Ásia ele foi determinante para a mobilização total do grupo.

Um dia antes da decisão, Fernandão foi aos microfones da imprensa e mandou uma mensagem aos colorados no Brasil: “Acreditem em nós!”. A frase exalava confiança e esperança na superação do maior desafio que o Inter iria encarar na sua existência. Dentro do vestiário, momentos antes da partida, ele pediu a palavra. Com os companheiros abraçados e reunidos em roda, Fernandão proferiu um lendário discurso, inflando os brios dos jogadores minutos antes do duelo contra os espanhóis.

Um ano mais tarde, em entrevista à Revista do Inter, o jogador falou sobre este momento especial: “Quando assisti ao primeiro DVD dos bastidores do Campeonato Mundial, quando vi a minha fala antes do primeiro jogo, não lembrava do que tinha dito. Mas é porque o teu sangue começa a subir. Tem que começar a entrar no clima do jogo, tem que chamar os teus jogadores por mais que já haja motivação. E por mais que já tenha todo aquele sistema ali, que nós já conhecemos, você tem que falar alguma coisa forte antes do jogo pra mexer realmente com o brio de todos. Não é nada calculado ou pensado. Por vezes, no aquecimento, você sente uma coisa, vê um jogador com uma movimentação diferente ou algum companheiro falando algo que te inspira a dizer o que vem na cabeça. Para falar a verdade eu não sei de onde vem a inspiração”, revelou.

> Vídeo: momentos marcantes pelo Colorado

> Veja entrevista de Fernandão à TV Inter

Em campo, Fernandão foi um gigante. Exerceu uma função tática diferente da que estava acostumado a desempenhar, tudo planejado na véspera do jogo, em conversa com o técnico Abel Braga. O atacante jogou mais recuado, criando novas alternativas ofensivas para o time. A partida foi duríssima e, aos 30 minutos do segundo tempo, extenuado e com cãibras em virtude da entrega abnegada, o capitão foi substituído por Adriano Gabiru, que viria a marcar o gol da impressionante vitória. Até nesta circunstância ele foi um predestinado, abrindo espaço para que o destino agisse.

Além dos títulos de alto quilate obtidos em 2006, Fernandão também foi duas vezes campeão gaúcho (2005 e 2008), da Recopa (2007) e da Dubai Cup (2008), quando, inclusive, marcou um gol contra a Internazionale de Milão. Foi ainda eleito craque do Brasileirão em 2005 e 2006 e ganhou a Bola de Prata da Revista Placar em 2006, além de ter sido convocado para a Seleção Brasileira em 2005.

De volta ao Beira-Rio, mas fora de campo

No dia 14 de junho de 2008, pouco depois de participar da conquista do Gauchão, seu último título pelo Inter, Fernandão acertou a transferência para o Al-Gharafa. Um ano depois, retonou ao Brasil para reviver suas origens atuando pelo Goiás. Em 2010 foi contratado pelo São Paulo e, por estes acontecimentos da vida, marcou seu primeiro gol pela equipe do Morumbi justamente sobre o Inter. E na mesma goleira em que anos antes havia superado Rogério Ceni na final da Libertadores.

Em julho de 2011, já aposentado como jogador, o capitão da América voltou ao Beira-Rio para ocupar o cargo de diretor executivo de futebol no seu clube do coração. É inegável que Fernandão sempre foi movido por novos desafios, e ele mergulhou de cabeça e alma nesta nova missão. Viveu intensamente a rotina de dirigente, buscando a excelência nos detalhes, sempre em prol do melhor para o Inter. Um ano mais tarde, em 20 de julho de 2012, foi convidado para assumir o comando técnico do time.

Estreou como treinador na goleada de 4 a 1 sobre o Atlético-GO, mas o Colorado encontrou dificuldades no Brasileirão e o ex-jogador acabou deixando o cargo em novembro. A partir de então, afastou-se do futebol e dedicou-se a negócios pessoais. Agora, em 2014, havia sido convidado pelo Sportv para comentar jogos da Copa do Mundo. Algumas semanas antes de falecer, esteve no Centenário, em Caxias do Sul, participando da transmissão do jogo entre Inter e Cruzeiro.


Fernandão exerceu cargos de diretor e técnico no seu retorno ao Inter

Fim trágico

A nação colorada despertou em luto na manhã do dia 7 de junho de 2014. Durante a madrugada, uma tragédia havia ceifado a vida de um dos jogadores mais importantes do Sport Club Internacional – em um acidente de helicóptero ocorrido durante a madrugada no interior de Goiás, Fernando Lúcio da Costa, o eterno capitão Fernandão, faleceu precocemente aos 36 anos. Uma densa comoção tomou conta dos colorados, torcedores rivais e todos que admiravam o caráter irretocável do ex-atacante. Em meio à dor pelo desaparecimento, a legião de fãs começou a fazer homenagens, na mesma proporção com a qual Fernandão se doava pelo Clube do Povo. Primeiro pelas redes sociais e depois se estendendo para as ruas, até chegar ao Beira-Rio, que se transformou em um memorial improvisado.

Com as bandeiras do Internacional e Goiás, clube que o revelou, estendidas sobre o caixão, Fernandão foi sepultado na sua cidade natal, Goiânia. Abalados, amigos, ex-companheiros e admiradores pareciam não acreditar na cena que assistiam. Um ícone do Inter e do futebol brasileiro partia muito cedo. Porém, como foi manifestado por todos os colorados desde o primeiro momento em que se depararam a sua morte, as lembranças desta personalidade ímpar que passou pelo Beira-Rio jamais serão apagadas. Seu legado é eterno, vivo e reluzente dentro do coração de cada torcedor. Nunca te esqueceremos, capitão!

Reconhecimento na comoção

A trágica morte do eterno capitão deflagrou uma comoção sem precedentes entre os colorados. A proporção do choque foi comparável ao acidente que vitimou o piloto Ayrton Senna, em 1994, quando o Brasil ficou perplexo com a partida do ídolo. Poucas horas depois da confirmação do falecimento, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, publicou uma mensagem no Twitter: “Profundo pesar por Fernandão, capitão do Inter campeão do Mundial de Clubes de 2006. Um líder dentro e fora do campo”, postou o mandatário máximo do futebol mundial. A presidente Dilma Housseff, que estava em Porto Alegre inaugurando o viaduto José Pinheiro Borba, nas cercanias do Beira-Rio, também usou as redes sociais para lamentar a morte. “Campeão mundial de clubes (pelo Inter) dentro de campo, Fernandão era fora de campo exemplo de caráter”, colocou em um dos posts no Twitter sobre o assunto.

Estátua de Fernandão foi colocada no pátio do Beira-Rio

Muitos jogadores, ex-companheiros ou não, também manifestaram pesar. “Fernandão, ídolos não morrem... ficam eternizados na nossa memória... Você sempre estará ao lado da gente, de cada colorado, em cada jogo, cada gol, cada título... Brigado por td que vc fez !!! #Luto”, escreveu o atual capitão D’Alessandro na sua conta social. "Triste pela perda do grande jogador e um excelente homem, Fernandão, ídolo dentro e fora dos gramados", postou Ronaldinho Gaúcho, adversário na final do Mundial de 2006.

Também pelas redes sociais, os colorados combinaram uma gigantesca concentração em frente ao Beira-Rio para homenagear o ídolo. No entardecer do triste sábado, cerca de 4 mil torcedores se reuniram na Avenida Padre Cacique e entoaram cânticos de saudação ao lendário camisa 9. De forma absolutamente espontânea, os fãs também criaram uma espécie de memorial em frente à Casa do Visitante do Gigante Para Sempre, onde flores, mensagens e lembranças de todo o tipo do ex-jogador foram depositadas. “Enquanto escrevo essa mensagem, me recordo outra vez de teus momentos pelo nosso Colorado. As lágrimas caem", dizia uma mensagem escrita na parede que se transformou em um mural.

No dia seguinte à tragédia, algumas horas depois do sepultamento de Fernandão, em Goiânia, o Internacional organizou uma missa no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, que foi acompanhada por milhares de emocionados colorados. Imagens de momentos marcantes do inesquecível jogador foram exibidas em telões instalados no palco. O hino do Clube foi entoado com emoção pelos presentes e, por fim, o tradicional cântico "Ô, vamos, vamos, Inter" ecoou no auditório, recriando a atmosfera do Beira-Rio no dia em que o próprio Fernandão comandou a torcida no retorno do time após a histórica conquista no Japão.

Líder dentro e fora de campo

Além de toda a categoria e precisão que exibia dentro de campo, Fernandão sempre chamou atenção pela sua inteligência acima da média. Tanto dentro do gramado como fora dele. Sua percepção apurada virou uma espécie de marca registrada. Naturalmente, isso lhe rendeu um status de líder no vestiário. Talvez, tenha sido esse, de fato, o seu grande diferencial: “O Fernandão era um líder nato, uma pessoa muito exigente no aspecto profissional. Sempre buscou tirar o máximo de cada atleta, um profissional exemplar e muito dedicado. Não é por acaso que foi um grande campeão. Só posso falar coisas positivas dele”, comenta o lateral-direito Ceará, campeão do Mundial em 2006 ao lado do eterno capitão.

Espírito de liderança foi um de suas marcas

Na convivência diária, o ex-camisa 9 ganhou o respeito dos colegas e se tornou uma referência, um exemplo a ser seguido. A admiração era tanta que alguns o viam como alguém da própria família: “Perdi um pai, um amigo, uma das pessoas mais importantes em minha vida. Ele me ajudou, deu conselhos e mostrou-se sempre pronto para me ajudar”, lamentou Rafael Sóbis. Alex fez coro ao ex-companheiro de Clube e ressalta que sua relação com a lenda colorada ultrapassou as fronteiras profissionais: “Ele foi um irmão mais velho pra mim. Aprendi muito como profissional e como ser humano com ele. Todos perdemos muito com sua ida prematura. Tinha muita coisa pra viver. E sinto demais pela família toda, Fernanda, Enzo e Helloah, a quem tive o prazer de conhecer e de encontrar na festa no Beira-Rio. Dói demais. Não dá para acreditar”, consterna-se.

O fato é que, apesar de não estar mais entre nós, Fernandão jamais irá morrer no coração de cada um dos colorados e de quem teve o privilégio de conviver com ele. Se antes de sua morte o eterno capitão já era um ídolo fora de série, depois dela, tornou-se um mito. “O Fernandão marcou demais a vida de todos os colorados, é um ídolo eterno. Infelizmente, aquela fatalidade tirou-o do nosso convívio. Mas da nossa memória ele nunca vai sair”, garante o ex-goleiro Clemer.

Por Felipe Silveira e João Linck
* Matéria publicada na Revista do Inter Nº 96  



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